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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Paixão pela Educação


Eu adoro ler Rubem Alves, e olha que a primeira vez que li um texto dele, eu já estava na faculdade.
Ele escreve de maneira poética, as verdades da vida, fala em seus textos, o que realmente importa na vida das pessoas.
Um livro que estou lendo no momento, é um livro curtinho chamado Conversas com quem gosta de ensinar, e estou adorando, fica aqui a recomendação.
Resolvi postar um texto escrito por ele chamado PAIXÃO PELA EDUCAÇÃO, é um texto um pouco longo, mas vale a pena a leitura, este foi trabalhado em sala de aula na faculdade onde estudo, espero que gostem.

Beijokas da Lari


PAIXÃO PELA EDUCAÇÃO

A paixão é emoção gratuita.Não há causas que a expliquen.Mas, quando acontece, ela age como um artista:da paixão surgem cenas de beleza.Os amantes se imaginam andando de mãos dadas por campos floridos;abraçados numa rede,silenciosos, diante do fogo da lareira;comtemplando o rosto de um nenenzinho adormecido...Paisagens de paixão.
Minha paixão pela Educação tem também suas paisagens que me comovem, agora que já sou velho, não são as mesmas que me apareciam quando eu jovem.
Acho que a velhice aparece no momento em que começamos a procurar os herdeiros.Ao meu redor está uma infinidade de objetos que me pertecem.Alguns me são totalmente indiferentes, do ponto de vista afetivo.Como por exemplo, este computador que estou escrevendo esse texto, igual a milhares de outros computadores, Não me preocupo com o que vão fazer com ele depois de minha morte.E isso é verdade de todos os objetos definidos pela utilidade só valem enquanto forem úteis.Quando deixam de ser úteis são trocados por outros mais novos, ou jogados fora.
O problema está nas coisas que são possuídas por sersm amadas, a despeito de Manoel de Barros, no livro sobre nada , diz:"prefiro maquinas que servem para não funcionar:quando cheias de areia, e de formiga e musgo, elas podem um dia milagrar flores.Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus. Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!"
Entre minhas coisas imprestáveis, estão pedras que catei em lugares que só eu sei, bolas de gude, piões, troncos de madeiras apodrecidos catados no pasto, quadros, livros de arte, livros de literatura, de mística, de poesia, livros que eu escrevi, cds, presentes de amigos que, tendo utilidade, são guardados por neles morarem memórias. É complicado escolher herdeiros para tais objetos. É preciso que os herdeiros sejam pessoas que o amem e cuidem deles, porque eles são parte de mim mesmo.
Mas, de todos os objetos, os mais difíceis e sutis, são as ideias. Bom seria que a gente pudesse fazer com as ideias o mesmo que os testamentos fazem com os objetos: são dados e pronto.
Na minha cabeça moram ideias de dois tipos. Primeiro, as ideias que não são de ninguém e são de todos, os saberes da ciência, o teorema de pitágoras, a regra de três e=mc2, força=massa x aceleração, as informações sobre a história, sobre a filosofia, sobre a geografia, sobre a teologia-tudo isso está gravado e organizado nos arquivos de minha memória de saberes. Congeladas, Paralisadas. Aparecerão quando eu precisar delas e as chamar.
Não tenho nenhum afeto especial por tais informações. Eu as uso como uso martelos e barbantes:pela utilidade. Estão na minha cabeça, mas podem ser encontradas em livros. Se a memória falhar, vou a um livro e lá estão elas à minha espera. Os educadores deveriam ter isso como moto: mais importante que saber é saber onde encontrar. Se eles soubessem disso, o ensino e os vestibulares seriam totalmente diferentes.
Essas ideias não são minhas. São propriedade universal. Apenas as usos. Assim, seu destino depois de minha morte já está resolvido. elas nem perceberão que morri.
Mas há outras ideias que são parte de mim. Nietzsche dizia amar somente os livros que haviam sido escritos com sangue. Livros escritos com sangue são aqueles em que as palavras são apenas a carne de ideias nascidas do corpo. A diferença entre os livros escritos com sangue e os outros escritos com conceitos é fácil de ser percebida. Os livros escritos com sangue mexem com o corpo e a alma. Os outros mexem só com a cabeça. O corpo fica do jeito como sempre foi.
Alberto Caeiro tem um lindo poema intitulado O guardador de rebanhos, Diz assim:

"Eu nunca guardei rebanhos
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar...
Quando me sento a escrever Versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento...
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho..."
Minhas ideias são os carneirinhos que apascento. Minhas ideias são meu rebanho.
Amo o meu rebanho. Fico aflito pensando que, quando eu morrer, minhas ideias ficarão sem pastor. Ai me ponho a procurar aqueles que irão apascentar minhas ideias.
Minhas ideias- carneirinho são meus sonhos. Elas nada têm a ver com ciência.
Porque as ideias da ciência são ideias universais, de todos, quer gostemos delas ou não. A verdade científica está fora do círculo do gostar. Minhas ideias não são universais. São minhas, e dos poucos que gostarem delas.
Meus sonhos são minhas esperanças. Os sonhos são a imagem visivel das esperanças. Eles não correspondem a nada que existia. Não têm, portanto, existência no mundo da ciência. Mas os sonhos é que nos separam dos animais. Nossos corpos fazem amor com o que não existe , ficam grávidos e parem.
Existe um mundo que acontece pelo desenrolar lógico da história, em toda a sua crueza e insensibilidade. Mas há um mundo igualmente concreto que nasce dos donhos: a "pietà", de Michelangelo, o "Beijo", de Rodin, as telas de Van Gogh e Monet, as músicas de Tom Jobim, os livros de Guimarães Rosa e de Saramago, as casas, os jardins, as comidas: eles existiram primeiro como sonho, antes de existir como fatos. Quando os sonhos assumem forma concreta ( Hegel dava a isso o nome de "objetivação do espírito").
Surge a beleza.
Zaratustra dizia haver chegado o tempo para que o homem plantasse as sementes de sua mais alta esperança.
É essa imagem que se forma ao redor de minha paixão pela educação: Estou semeando as sementes da minha mais alta esperança. Não busco discípulos para comunicar-lhes saberes. Os saberes estão soltos por ai, para quem quizer. Busco discípulos para neles plantar minha esperança.

Rubem Alves

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